Artista jamaicano, que sucumbiu ao câncer em 1981, ganha homenagens por legado que ultrapassou as décadas
O cantor e compositor Bob Marley, em 1976
Artista jamaicano, que sucumbiu ao câncer em 1981, ganha homenagens por legado que ultrapassou as décadas
o cantor e compositor Bob Marley — jamaicano que se tornou uma das maiores lendas da história música pop — completaria 80 anos de idade. As comemorações se iniciam a própria quinta, com a transmissão ao vivo (pelo canal Tuff Gong TV do YouTube) do concerto tributo “Uprising”, diretamente dos Tuff Gong Studios, em Kingston, na Jamaica.
Uma série de artistas populares e novos do país, como Mortimer, Bugle, Kumar Fyah, Naomi Cowan, Quan Dajai, Kelly Shane e Alexx A-Game, homenageiam aquele que cuidou de espalhar o reggae pelo mundo, ainda nos anos 1970.
Outras celebrações na quinta incluem a transmissão do episódio de estreia da série “Bob Marley & I”, com o diretor de cinema, DJ e músico britânico Don Letts, contando detalhes da experiência que mudou sua vida: assistir a Bob Marley & The Wailers no Lyceum Theatre, em Londres, em 1975.
E também no canal, ao meio-dia de Brasília, a Bob & Rita Marley Foundation vai produzir uma cantoria mundial, na Co-op Live Arena, em Manchester, Inglaterra. Lá, o coral Young Voices, com 8 mil integrantes, se junta a milhares de outras vozes ao redor do mundo para interpretar o medley “Marley Magic”, seleção dos maiores sucessos de Bob Marley, incluindo “One love”, “Jamming” e “Three little birds”.
Objeto, no ano passado, de uma cinebiografia hollywoodiana (e controversa), “One love”, Marley faleceu em 1981, aos 36 anos, de um câncer no pé que ele não tratou e se espalhou pelo corpo. Lançada em 1984, a coletânea “Legend” deu o primeiro sinal de que ele não seria esquecido (ao contrário, até, ficaria ainda mais famoso): é hoje o 14º álbum mais vendido de todos os tempos e a terceira coletânea de greatest hits mais vendida na história dos Estados Unidos.
Segunda celebridade póstuma com o segundo maior número de seguidores nas mídias sociais, Bob Marley está, de fato, mais vivo do que nunca. E aqui vão 10 exemplos daquilo que ele fez e que dizem muito sobre o mundo de hoje, mesmo quase 44 anos após a sua partida do plano material.
O conciliador
Os tempos atuais são de polarização política? Bob Marley seria uma boa solução: com o seu prestígio de artista (e pacifista), ele conseguiu juntar os rivais políticos Michael Manley e Edward Seaga no palco do seu One Love Peace Concert, em 1978. O gesto simbólico tinha como objetivo pedir uma trégua e mostrar união entre os dois partidos, evitando derramamento de sangue em batalhas de facções no país.
A força do pop do Terceiro Mundo
Se hoje nomes como o do porto-riquenho Bad Bunny dominam as paradas de música do mundo com o reggaeton, eles têm que agradecer a Bob Marley. Antes de o jamaicano ir para a Inglaterra e criar uma versão do reggae com apelo suficiente para conquistar mercados de música fora de seu país, nenhum outro artista do Terceiro Mundo havia conseguido emplacar um estilo inteiro como uma sensação pop duradoura (e influente em larga escala). O termo “world music”, aliás, foi criado depois de Marley, muito para abarcar essas potências sonoras que os EUA e a Europa não conseguiram domar.
O divulgador da cultura da Cannabis
Capa do disco "Catch a fire", de Bob Marley and The Wailers
Antigamente, a erva do diabo, uma calamidade pública que destruía as famílias pelo vício. Hoje, matéria prima de medicamentos importantes. A mudança de mentalidade do mundo em relação à Cannabis sativa, a popular maconha, vem na esteira de um trabalho que foi feito ao longo dos anos por muitas figuras públicas – principalmente Bob Marley, que nunca escondeu (e, ao contrário, propagou) o uso ritualístico que fazia da planta e a inspiração que ela trazia para a sua criação.
O coach involuntário
Até mesmo a revista “Forbes” teve que reconhecer no ano passado: O legado de Bob Marley continua a inspirar líderes a promover paz, união e ação para enfrentar os desafios globais. A publicação elogiou sua autenticidade (“ele permaneceu fiel às suas raízes e usou sua plataforma para defender a paz, o amor e a união”), sua resiliência (“apesar de enfrentar vários desafios, incluindo pobreza e violência política, Bob Marley nunca vacilou”), sua influência (“ele se tornou um símbolo de resistência e empoderamento para comunidades marginalizadas no mundo todo”), sua empatia e sua compaixão.
A prova de que religião e música pop podem conviver
As questões que o gospel levanta hoje no Brasil, do quanto se pode ser pop e atingir outros públicos sem afetar a legitimidade do seu louvor, nunca foram questões para Bob Marley. Ele alguém para quem música e fé eram indissociáveis, e quem quisesse chegar era bem-vindo. Tanto que, além do reggae, ele também levou para o mundo os princípios do Rastafarismo, sem que isso soasse como pregação.
YG Marley, neto de Bob Marley, e Ghabi
Outra questão contemporânea que talvez não incomodasse Bob Marley é a dos nepobabies. Pai de 11 filhos e imbuído da missão de levar o reggae para o mundo, ele bem teria se orgulhado do que alguns de seus rebentos fizeram pela música: seja Ziggy, o mais famoso, sejam Damien, Stephen ou Julian. E mais recentemente, o neto YG Marley (na foto), filho do ex-jogador de futebol Rohan com a cantora Lauryn Hill.
O símbolo eterno do reggae
O estilo que Bob Marley aperfeiçoou e ajudou a espalhar pelo mundo (com artistas no Brasil, Noruega, Japão e onde mais se possa pensar) sofreu mutações antes e após sua morte (dub, dancehall, raggamuffin, reggeaton), mesclou-se ao pop e se manteve firme no cenário, lá se vai mais de meio século desde a sua explosão. Mas segundo levantamento nos Estados Unidos, hoje cerca de um quarto de todo o reggae ouvido no país é composto por músicas de Marley. Mal comparando, o homem é um Elvis Presley que nunca viu Beatles pela frente.
Pai de 11 filhos de sete mulheres diferentes, e não exatamente a imagem do homem desconstruído que alguns buscam ser hoje, Bob Marley no entanto é citado como inspiração para movimentos feministas por causa da canção “No woman no cry” – ele teria acertado em cheio ao fazer de uma mulher o personagem principal de uma canção que fala de resistência e busca por justiça num contexto de opressão contra os desvalidos e desprezados.
O ícone fashion
O cantor e compositor Bob Marley, no Brasil
Os dreadlocks, adotados por razões religiosas. O gorrinho com o qual reunia os dreads no topo da cabeça. Os modelitos jeans, os trajes nas cores do Rastafarianismo (verde, amarelo e vermelho). Os shortinhos de futebol e os agasalhos esportivos da Adidas (antes que os rappers os popularizassem): muito do que Bob Marley vestiu (porque, afinal, ele era Bob Marley), e o mundo pop levou um certo tempo para digerir e adotar, hoje é um adorável lugar comum.
Teorias da conspiração
Antes mesmo de se tornarem a obsessão que são hoje, em todas as instâncias de poder e de mistério, elas já cercavam a morte de Bob Marley. Há desde quem acredite que o câncer possa ter sido inoculado nele por intermédio de um sapato preparado por seus inimigos políticos até o de que essa espécie de envenenamento tenha sido levada a cabo pela Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA), preocupada com a influência do artista da política jamaicana.